Cancelamentos de eventos no Paraná levantam dúvidas sobre gastos públicos e colocam temporada de verão sob pressão

Cancelamentos de eventos no Paraná atingiram a FESCAETÊ, a ExpoFazenda, a Festa do Morango e o FCCA em 2026. As decisões levantaram preocupações sobre compromissos com fornecedores, trabalhadores e empresas do setor.

As administrações municipais e a Associação Paranaense das Microcervejarias (PROCERVA) apontaram razões distintas, como convênios não formalizados, riscos climáticos e falta de apoio público. Ao mesmo tempo, contratações da Secretaria de Estado do Turismo do Paraná (SETU) passaram a ser questionadas por órgãos de controle.

Os casos envolvem Curiúva, Fazenda Rio Grande e Almirante Tamandaré, além do FCCA, cuja não realização foi comunicada pela PROCERVA em 14 de outubro de 2026. Representantes do setor, entre eles Fábio Aguayo, cobram esclarecimentos sobre recursos e compromissos assumidos.

cancelamentos de eventos no Paraná

A proximidade da temporada de verão no litoral paranaense amplia a discussão sobre previsibilidade e planejamento. A pauta reúne os motivos informados para os cancelamentos, os questionamentos sobre gastos estaduais e os efeitos das decisões para a cadeia de eventos.

Cancelamentos municipais têm razões financeiras e climáticas distintas

Em Curiúva, a Prefeitura cancelou a FESCAETÊ 2026, prevista para 30 e 31 de outubro e 1º de novembro, durante as comemorações dos 79 anos do município. A administração informou que a programação dependia de um convênio estadual de R$ 500 mil, destinado à estrutura, aos shows e aos brinquedos gratuitos.

Segundo a Prefeitura, o convênio da Secretaria de Estado do Turismo do Paraná (SETU), ligado ao protocolo nº 25.859.587-4, não chegou a ser assinado pelo Governo do Estado. O município relatou que tentou resolver o impasse com órgãos estaduais e parlamentares, mas não conseguiu viabilizar o recurso dentro do prazo necessário para realizar o evento.

Em Fazenda Rio Grande, a ExpoFazenda 2026, marcada para 3 a 6 de dezembro, foi cancelada após uma alteração anterior no planejamento, que incluiu adiamento e reagendamento. A Prefeitura apontou os riscos de chuvas intensas e de eventos climáticos associados ao El Niño, e anunciou que os recursos previstos para a feira seriam direcionados à saúde e à infraestrutura, incluindo o atendimento de uma fila superior a 20 mil exames médicos.

Já em Almirante Tamandaré, um decreto assinado pelo prefeito Daniel Lovato formalizou, em 23 de outubro, o cancelamento da Festa do Morango, que estava programada para 6, 7 e 8 de novembro. Conforme as informações atribuídas à administração municipal, a Defesa Civil recomendou suspender a festa diante da possibilidade de chuvas volumosas e rajadas de vento; também pesaram a situação de emergência e dúvidas sobre repasses, convênios e emendas parlamentares. A Prefeitura afirmou que os valores seriam reavaliados e poderiam ser destinados a saúde, educação, infraestrutura urbana e drenagem, conforme os procedimentos legais e orçamentários.

PROCERVA anuncia que o FCCA não será realizado em 2026

Em comunicado divulgado em 14 de outubro, a Associação Paranaense das Microcervejarias (PROCERVA) informou que o FCCA não seria realizado em 2026. A entidade declarou que buscou viabilizar a programação, mas não obteve o apoio público considerado necessário para promovê-la nos moldes planejados.

A associação também mencionou a importância de parcerias institucionais e de condições que permitam manter a qualidade e a segurança da programação. A comunicação não detalhou valores ou compromissos financeiros específicos relacionados ao evento.

O cancelamento mostra que as dificuldades não se restringiram a programações organizadas por prefeituras: o FCCA era promovido pela PROCERVA e dependia de apoio institucional. Para empresas e fornecedores envolvidos, a entidade apontou a falta desse apoio como impedimento à realização do evento conforme o planejamento.

Contratações da SETU somam R$ 56,2 milhões em levantamento

Um levantamento divulgado em reportagem sobre a gestão estadual identificou 364 contratações diretas da Secretaria de Estado do Turismo do Paraná (SETU) para locação de espaços, estandes, mobiliário e estruturas em eventos. O total informado foi de R$ 56,2 milhões.

De acordo com o levantamento, 351 contratações — equivalentes a 96,4% do conjunto analisado — tinham valores múltiplos exatos de R$ 5 mil. A reportagem também apontou que os valores passaram de R$ 9,49 milhões em 2025 para R$ 46,71 milhões até 11 de agosto de 2026.



Quando foram incluídas autorizações de recursos destinadas ao serviço social autônomo Viaje Paraná, o total analisado alcançou R$ 59,7 milhões em 2026, até agosto. Outro levantamento citado na cobertura identificou R$ 24,2 milhões em contratos concentrados em maio e junho daquele ano.

Os dados foram encaminhados ao Tribunal de Contas do Estado do Paraná (TCE-PR), ao Ministério Público do Paraná e à Justiça estadual. No TCE-PR, o processo nº 499290/26 trata de questões sobre legalidade, economicidade, transparência e critérios das contratações; a existência de apuração, por si só, não confirma irregularidade, que depende da análise dos documentos e das explicações dos órgãos responsáveis.

Concentração de despesas em 2026 exige esclarecimentos

A concentração de contratos em maio e junho, que somaram R$ 24,2 milhões no levantamento citado, motivou questionamentos sobre o planejamento dos gastos estaduais durante o ano eleitoral de 2026. A análise apresentada aos órgãos de controle busca esclarecer os critérios de distribuição dos recursos e a finalidade das contratações.

Fábio Aguayo, presidente da Federação das Empresas de Hospedagem, Gastronomia, Entretenimento, Lazer e Turismo do Paraná (FETURISMO) e do Sindicato das Empresas de Promoção, Organização e Montagem de Feiras, Congressos e Eventos do Paraná (SINDIPROM), defendeu que os gastos sejam explicados com base em documentos e informações públicas. Ele questionou como foram planejados os investimentos e se havia previsão orçamentária suficiente para cumprir os compromissos assumidos.

Aguayo pediu que a SETU esclareça a programação, os contratos firmados, os pagamentos feitos e os compromissos ainda pendentes. Ele também afirmou que é necessário demonstrar quais resultados foram entregues e como os recursos públicos foram aplicados.

Recursos públicos, prioridades e impactos para o setor de eventos

Ao comentar o redirecionamento de recursos previstos para eventos, Aguayo reconheceu que saúde, segurança e educação são prioridades permanentes. Seu questionamento foi sobre a retirada de verbas de programações que já estavam sendo planejadas e sobre a necessidade de essas áreas serem consideradas no planejamento público ao longo do ano.

O presidente da FETURISMO e do SINDIPROM afirmou que eventos não se limitam às apresentações: segundo ele, envolvem hotéis, restaurantes, bares, transportadoras, empresas de montagem, equipes técnicas, artistas, comerciantes e trabalhadores. Em sua avaliação, decisões de cancelamento podem alcançar empresas e profissionais além dos organizadores.

Aguayo defendeu critérios claros para a distribuição dos recursos e para as parcerias, sem propor a realização de eventos a qualquer custo. Ele também pediu que mudanças nas programações sejam comunicadas com antecedência e que as decisões considerem os compromissos assumidos por empresas e trabalhadores.

O dirigente afirmou que a análise dos gastos não deve se limitar às despesas que deixam de ser feitas com um evento. Em sua declaração, pediu que sejam considerados os empregos, os serviços contratados, a renda gerada e as obrigações já assumidas, sem atribuir diretamente os cancelamentos às contratações estaduais que estão sob questionamento.

Riscos climáticos e compromissos na temporada de verão

Em Fazenda Rio Grande e Almirante Tamandaré, as prefeituras citaram riscos meteorológicos ao justificar os cancelamentos, enquanto a Defesa Civil de Almirante Tamandaré recomendou a suspensão diante da possibilidade de chuva volumosa e vento intenso. Aguayo afirmou que a segurança deve prevalecer, mas defendeu decisões apoiadas em informações técnicas, protocolos e avaliação das condições de cada evento.

Ao mencionar o El Niño, o dirigente questionou se as justificativas climáticas seriam aplicadas de maneira indistinta a outras programações, citando o Verão Maior e eventos de grande porte. Ele ressalvou que a comparação não significa que todas as atividades tenham os mesmos riscos ou devam ocorrer independentemente das condições do tempo.

A proximidade da temporada de verão no litoral paranaense preocupa empresas de hospedagem, bares, restaurantes, eventos e prestadores de serviços, que precisam organizar equipes, contratar serviços e adquirir materiais com antecedência. Aguayo pediu esclarecimentos sobre os recursos disponíveis, os convênios formalizados, os contratos e os pagamentos ainda pendentes.

Para o presidente da FETURISMO e do SINDIPROM, a sequência de cancelamentos em Curiúva, Fazenda Rio Grande e Almirante Tamandaré, além da decisão da PROCERVA sobre o FCCA, exige uma prestação de contas mais ampla. Ele cobrou informações sobre quais compromissos serão honrados e como o planejamento financeiro considera as prioridades sociais e a atividade econômica ligada aos eventos.



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